março 25, 2004

Sem julgamento para Entre-os-Rios

1886 foi o ano em que a Ponte Heintze Ribeiro foi construída. 4 de Março de 2001 foi a data da sua derrocada.
Nesta tragédia perderam a vida 59 pessoas, que retornavam de uma viagem de camioneta às amendoeiras em flôr. 59 pessoas do povo, como eu e muitos, 59 pessoas perdidas entre as aldeias e vilas do Douro, habituadas desde cedo à imagem do rio e seu caudal. Não imaginavam que nele fossem desaguar a sua vida.

A justiça (ela existe?!) demorou 3 anos a tomar uma decisão, deixou esquecer da opinião pública os factos sucedidos nessa noite, apagou a lista de possíveis culpados com uma borracha ténue e fria. Rolou a cabeça de Jorge Coelho, pôs em cheque o Governo de António Guterres, que sucumbiria a toda a polémica, apenas tendo como alternativa um pedido de eleições antecipadas.

59 pessoas, quantas mais famílias desmembradas, população que trabalhava nas vossas fábricas, vos fornecia os vossos alimentos, viajavam de camioneta e não de taxi, avião, metro ou helicóptero. Longe de Lisboa, mas perto de onde moro.

A culpa é de quem? Da falta de avisos por parte da população e seus governantes? O futuro provou que as diligências foram tomadas, a força de as pôr em prática é que não chegou, na verdade, é melhor gastar o dinheiro público em Estádios do que numa ponte onde passará um ministro apenas quando for para a inaugurar.
Será então culpa dos automobilistas que usaram e abusaram da ponte? Mas...e pergunto eu: Havia alternativas?! Não...então... Aliás, nem sinalização conformante existia.
Será culpa dos areeiros? Em parte, mas quem os deixa tirar a areia também é criminoso. E quem não fiscaliza também o é.
Será culpa da JAE? Pois está claro. Em 1986 fizeram as tais filmagens onde se notavam fissuras na ponte, quem devia ter alertado, ou não o fez, ou não foi ouvido. Quantas mais pontes problemáticas anteriores até a 1986 estão ainda em utilização? Quem tem poder para colocar uma placa ou sinalização a proibir pesados ou a fiscalizar a circulação dos veículos?

É nojento, mesquinho e hipócrita que NINGUÉM seja julgado pelos factos ocorridos. A questão não é de culparem alguém por homicídio, mas sim acusarem de negligência. Se todos sabiam que estava assim e nada fizeram, porque razão não deveriam ser acusados de negligência? Nem que fosse uma coima aplicada aos responsáveis, sem pena de prisão, mas que fosse solucionada de uma forma rígida e exemplar. Não foi um atentado, mas é como se fosse, todos sabemos que há culpados, mas como têm fato e gravata, e como quem pede justiça é o povo, nada se faz. Nem quero imaginar quanto dinheiro não terá passado por debaixo da secretária, mas realmente, cada dia que passa, onde criminosos desta esturpe passam imunes.

Esse juíz não é humano, não tem um mínimo de bom senso, não teve ninguém na tragédia, não a viveu.
A comunicação social, que tem papel preponderante na manipulação da crítica social e humana, dedicou hoje, apenas um pequeno espaço noticioso, uma notícia com o mesmo air-play de um qualquer evento desportivo, por exemplo, que merecia ser reflectida e equacionada de uma outra forma, sem elitismos, sem protagonismos.
Como posso eu respeitar algo criminoso? Uma decisão criminosa, uma manipulação criminosa, uma dor que não é respeitada, que é abusada e troçada.


Publicado por pietr em 02:09 PM | Comentários (0) | TrackBack

março 22, 2004

Festival Lusophonia - o Fracasso...

Já estava a pensar ir ver o concerto, quando na terça-feira passada, ao ver o Blitz com um cd por 1 euro, lá comprei o dito jornal e reparei que estavam a oferecer bilhetes para aquilo que eu tão aguardava no fim-de-semana.
Hmm..chegada a hora estabelecida, lá liguei para o número indicado e pronto, sempre ganhei o ingresso para aquela que eu previa ser uma noite porreira em termos de música.

Apesar de marcar 22hr na folha da agenda, preveni-me com o facto de na página do passatempo estar marcado o inicio pelas 2 da manhã...hora demasiado tardia, pensei.
E lá fui eu no meio termo, i.é. 23 e pico, para o Hard Club, mas quando cheguei, o recinto despido de seres humanos, apenas staff, adivinhava-se uma noite fraca de afluência para além de fria.

Uma, uma e tal, DJ Cruzfader nos pratos encarou com profissionalismo o seu tempo de antena, para as (no máximo) duas dezenas de ouvintes (ou passando ao lado por completo) na sua actuação.
Acabando o seu set, pegou na mala, veio-se embora.
Uma hora depois, e já bastante tempo depois de estar em palco à espera da hora de inicio do "show", Black Alien iniciou o espectáculo, sem dúvida esperando uma plateia bem mais composta.

Vagueando no drum´n´bass, hip-hop e ragga, um dos mais chegados amigos de Marcelo D2 e dos Planet Hemp, deu uma fantástica réplica do seu trabalho a solo, usando apenas 20% do palco disponível, e raramente se mexendo. Mas não esteve calado na sua hora de actuação.

Prince Wadada era o homem que se seguia...ou a banda que se seguia. Apesar de ter estado durante o concerto de Black Alien, no meio da plateia (talvez para fazer número...) a banda subiu ao palco encarando o público como destinatário da sua mensagem e música. Interpretaram imensos temas, todos com raízes rastafari, muito reggae, estribilhos consistentes e fáceis de decorar - orelhudos - que fizeram vibrar positivamente a meia centena (se tanto...) de pagantes (?) do Festival.
Foi um concerto excepcional, sinceramente surpreendeu-me bastante as letras e o sentimento com que o Prince encarou o concerto, mesmo com a sala às moscas.

Lado negativo...o evento concerteza não facturou o esperado. Faltou Kacetado que no cartaz vinha anunciado, e faltou algo que prendesse e chamasse mais à atenção do público. Fiquei com a sensação que apenas uma elite rastaman, juntamente com alguns apreciadores da boa música cantada em português se interessaram pelo evento. Negativo também o facto de começar às duas da manhã...grande seca esperar quase três horas para o inicio do espectáculo... também negativo o facto de ter ficado surpreendido com a afluência em Planet Hemp ter sido enorme, e os fãs da banda não irem ver um dos seus membros a solo...

E ficamos todos a perder com a mínima afluência. Os organizadores pelo prejuízo que provavelmente tiveram, a casa (HC) porque se calhar foi grande demais para o público que teve, e nós, que gostamos de música e reclamamos por determinadas bandas virem tocar à nossa terrinha, ao nosso PAÍS, e depois serem recebidos por meio autocarro. Para isso mais valia terem tocado no avião, sempre teriam mais público.

Mas ide ao Rock in Rio, aí sim se encontra a "boa" música. A música que eles querem que vocês ouçam. A música deles...e vocês pagam por ela!

Publicado por pietr em 11:03 PM | Comentários (1) | TrackBack

março 19, 2004

O caso da mala perdida

Ontem, com o televisor sintonizado naquele que é ainda o canal "preferido" dos portugueses, surgiu uma "mega"(como lhe chamaram) reportagem, onde uma mala de roupa, aparentemente adquirida em Marrocos, poderia ter sido colocada na Gare do Oriente, sem que tivesse sido revistada.

A notícia soa a ridicula, se pensarmos bem, qualquer um de nós poderá envergar uma mochila, uma mala ou um saco de plástico do Continente, e afirmar que nele se esconde um terrível detonador feito de plasticina.

Com a vitória naquilo que pretendiam (audiências), surgem algumas questões que se colocam, e que os media são responsáveis, nomeadamente os repórteres e toda a estrutura desta empresa:

Ponto 1 - Semeiam o medo. Aproveitando-se do impacto social e mesmo político (até quase catapultaram M.Rebelo de Sousa para a P.R.), criam no comum dos telespectadores, uma sensação de insegurança. Eu não gostava que cada vez que entrasse num autocarro tivesse de mostrar a minha mochila e que analisassem os meus escritos, já o basta no futebol, mas aí compreendo que possa ser utilizada como arma de arremesso. Paranóia nacional. Na rua pode aparecer um maluco e rebentar com a rua toda. O melhor...é ficar em casa. Mas se ficar em casa, o prédio pode cair, como tal..não sei o que será melhor...

Ponto 2 - Xenofobia. Porquê começar em Marrocos? Porque não ir ali à Sport Zone e comprar uma mala idêntica e passear-se pelas ruas da cidade criando um simulacro de possível atentado? Porquê atiçar os cães raivosos (leia-se população) a outros seres humanos (entendam-se àrabes, muçulmanos, indianos, qualquer outra religião ou credo ou nacionalidade)? Temo muito mais alguns portugueses que por aí andam, do que propriamente qualquer outro cidadão marroquino.

Ponto 3 - Chamam a atenção de Portugal. À beira-mar plantado, com um passado de conquistas e de retrocesso (embora manifestamente só se orgulhem pelo que "fomos", há que entender a realidade do quotidiano...para os mais critícos, faça-se uma comparação entre o país Portugal e o clube Benfica, enquanto eu esboço o meu sorriso..). Voltando, será que a Al-Qaeda estaria interessada em abrir fogo sob Portugal? E iria perpetuar o crime em local idêntico ao da passada semana? Só vamos desconfiar de tudo e de todos, ainda ontem estava no autocarro e só por estar com o meu telemóvel, a senhora afastou-se, temendo, talvez, algum ataque terrorista dentro do simpático 15 dos STCP. Talvez tenha cara de marroquino ou de outra qualquer nacionalidade...

Ponto 4 - As figuras ridiculas dos "personagens" da "peça". Colocam a mochila no banco da frente, omitindo, que talvez a tenham pedido para a abrir, que a abriram, e na peça dizerem depois que "nem sequer olharam para ela". Porque não meteram a mochila noutro lugar qualquer do automóvel? Mais, porquê uma mochila? Porque não um invólucro de um rebuçado, ou uma bola de futebol mais pesada que o habitual? E depois, os "artistas", de terroristas não tinham nada. Havia de ser em França, num dos monumentos que visitei em Paris neste Verão, onde até as pilhas da máquina fotográfica pediram para revistar. Isso sim, seria controlo. Mas depois, aconteceria como nos jogos de futebol, onde SÓ HÁ UMA PORTA ABERTA, para 8000 adeptos, revistados individualmente, sendo que com 15 minutos de jogo ainda há uma extensa fila de adeptos na fila, gesticulando e insultando os sôres agentes de autoridade, que não os deixam visualizar no nosso Estádio, o meu Boavista...

Publicado por pietr em 12:27 PM | Comentários (0) | TrackBack

março 18, 2004

Um mês depois...

Um mês depois, cá volto eu ao meu espaço, às minhas (entre)linhas sobreditas.
E porque não vim mais? Sei lá...Isso não interessa agora...
Tanto se passou, desde a vitória do Porto frente ao todo-poderoso Manchester, o Senhor dos Anéis vencer as categorias para que estava nomeado, nos aclamados óscares, entretanto abafou-se o tema "Aborto" votando-se na A.R., bombas no Médio Oriente apenas em rodapé das televisões portuguesas, e claro está, no país vizinho, o tal atentado e suas consequências políticas e consequente viragem à esquerda e *medo* de um retrocesso na Economia nacional, ou de um corte relacional com os-que-todos-odiamos-mas-precisamos-deles.
E há ainda a acrescentar o burburinho de um possível ataque idêntico em Portugal...e ressalta a questão: Seremos um país patriota?
Ou ainda ouvir que com o Comunismo, Portugal ficou sem liberdade religiosa...
Mais "Manifesto" no Blitz, um cd de cultura, daí sem IVA, com quatro bandas nacionais (Mas ainda ouço...ah, há música portuguesa?!?!) completamente grátis.
Voltando ao futebol, eis que surge a oportunidade de ver outra grande equipa nacional brilhar no estrangeiro, desta feita o Benfica que fez uma exibição na Luz bastante boa. Já o FC Porto, medirá forças com o Lyon para um lugar nas meias-finais. De referir que ambas as equipas portuguesas já se qualificaram para a final da Taça de Portugal.
Voltando para a ordem do dia, mais magrebinos vão sendo presos por suspeitas de terrorismo...e vai-se provando a ineficácia europeia no que concerne à informação e à partilha, gestão, interpretação e percepção da mesma. Só podemos culpar-nos a nós próprios...

Publicado por pietr em 12:34 PM | Comentários (0) | TrackBack