janeiro 22, 2004

Decisão

Isola-te. Contraria-te. Contradiz-te de novo perante a multidão que te espera. Sai. Como queres sair e fugir para outro lugar que não este, quente e conservador.
Sorrisos incompreensíveis pretendes. Novas linguagens. Novas viagens. Novos rostos sombrios, conhecedores do mistério que procuras, e desconhecedores do segredo que possuis. Frio e gélido. De cortar à faca.
Parte em direcção ao extremo e encontra-te, do mesmo modo que outros já o fizeram e por lá ficaram. Procura a felicidade nesse caminho estridente de um avião a partir e a aterrar. Descontrai-te.
Não fazes nada aqui. Aqui já é demais monótono para o movimento que és. Descortina as dificuldades, quanto aprenderias longe daqui. Apetece-te?
Imagina quão chegarias rico em pensamento quando voltares...procura. Encontra.
Mas o que és tu aqui, visionário? Não és tu que pretendes compreender o que a informação é? Não procuras a verdade informacional? A essência não está aqui no país à beira-mar plantado. E tu consegues encontrá-la. E tu consegues percebe-la. Mas não aqui.
Mas o que és tu aqui, missionário? Não nasceste para amar a vida e os outros? E não estás satisfeito no cubo onde te encontro cada dia que passo na rua onde estás especado à espera de uma mão estendida? Pessimista. Incompreendido. Tens a mania que és perseguido pelo mundo. Queres que o mundo te avalie, não pelo teu carácter mas pelas tuas acções. Não pelo que possas parecer quando estendes a mão, mas sim o porquê de a estenderes.
Mas quando te dão oportunidade de a estenderes...o objectivo deles é posicionar a tua mão de modo a conseguires mais pão espiritual que te alimente o conhecimento. Não é isso que procuras, pois não? Então sai, e volta amanhã. Pode ser que acordes mais bem-disposto e voltes de novo ao ciclo infindável de "Como destruir um ego".
"Esquece como estender a mão e preocupa-te em segurar a mão que te apoia", ouves tu. "Que te levanta!", reforça. "Que te ama...", começas a fortalecer-te. "Que contigo irá atravessar todos os abismos e vales escuros da vida até que o teu corpo caia sem mais estender a mão...", decidiste-te. Ficas.

Publicado por pietr em 02:09 PM | Comentários (2) | TrackBack

janeiro 09, 2004

Precipício Semântico

Coloca-me junto ao precipício, deixa-me optar por cair nele, ou por ficar parado eternamente perante ele...
Deixa-me cair se eu quiser, tu que nada temes, deixa-me ficar aqui sem me empurarres, tu sabes que não consigo mexer-me, então porque me prendes às cordas do teu sorriso ignóbil?
Não me ponhas asas se a minha opção for cair, não me coles ao chão se quero ficar, não interfiras.
Não opines, ignora-me, sente-me, não me iludas, lá em baixo o tempo é curto.
Não me mintas que se cair a viagem é longa e há sempre elevador para voltar ao mesmo. Não me faças deixar cair o meu espírito se o corpo se mantêm preso.
Não me deixes cair nem ficar, não quero voar, mas também não quero estar, permanentemente fixado no teu olhar, seguindo ou deixando o teu rasto na minha miracolosa inércia. Não me atires, não sou eu.
Não me odeies, não me ames, não...

Publicado por pietr em 05:49 PM | Comentários (3) | TrackBack

Pedofilia nos Açores

Depois do escândalo Casa Pia, e de inúmeras referências a abusos sexuais a menores na Madeira, é a vez de se "limpar" os Açores quanto a criminosos deste foro.
Mas o que me dá a entender entre os dois casos agora mediáticos, é que, se num o efeito imediato é o facto de quase apenas serem detidos personalidades com algum carisma público, seja na política, seja no meio onde são especializados (medicina, direito, etc...), noutro, os "presumíveis" suspeitos são pessoas que, aparentemente, têm pouco ou nenhum reconhecimento nacional e local, não obstante de serem ou não bem sucedidos na actividade que estão inseridos.
Tal como eu, muitos provavelmente já equacionaram o porquê de num caso, "apenas" estarem acusados personalidades, e noutro - neste açoriano - o panorama dos acusados ser um pouco distinto.
Será que o caso da Casa Pia só envolve os que actualmente estão acusados? Afinal não havia rede, segundo consta... Então, mas se existe lenocínio, não existe associação criminosa? Há coisas muito estranhas neste caso, talvez deturpado mais pela comunicação social que pela própria justiça em si.
No caso dos Açores, o número de acusados é desde logo aumentado, e os envolvidos não são apenas personalidades de carisma público...
Dá que pensar a comparação entre os dois casos...não haverá mais gente envolvida no caso de Lisboa? Ou só se pretende acusar os "poderosos" para que seja um exemplo nacional?

Publicado por pietr em 05:40 PM | Comentários (0) | TrackBack

janeiro 03, 2004

2004: Ano de viragem ou de estabilidade?

Num mundo e num país (ainda) controlado através de homens, é natural que algumas questões tendem a cair no esquecimento e só com muita luta e persistência a mentalidade da população poderá evoluir.
Num mundo e num país onde (ainda) é preferível ver a monotonia da vida de outrém, o tempo de reflexão está condicionavelmente esquecido, e ver os outros parados a admirar quem nada pela vida fez senão ser um dos nomeados para um "teste psicológico", parece ser um exercício de constante apatia, ainda para mais quando os sentimos (quase) a encarnar numa dessas personagens.
Num mundo e num país onde a religião continua a ditar as nossas escolhas e princípios, a discriminação, a não-aceitação e a instigação de revolta perante os não-católicos parece que a evolução (ainda) vai tardar bastante, muito embora, os "não-alinhados" deixem a achega que 2004 será o ano da discussão de um tema do foro humano, que é o aborto. Muitos tentam evitar essa decisão, munidos de argumentos preconceituosos, esquecendo-se que a discussão de um tema é demais essencial, goste ou não se goste, concorde ou não se concorde!
2004 será o ano onde a Economia florescerá, muitos olhos serão tapados por entre um Europeu de Futebol que se prevê um sucesso económico, mas um desastre desportivo. Já no fim do ano se poderá analisar as perdas e o lucro que obtiveram os clubes e respectivos recintos, bem como a administração portuguesa.
Ainda pegando no mesmo tema, uma questão fica no ar, agora que o novo ano começa: Será que um dos grandes mentores deste projecto poderá ver com os seus próprios olhos aquilo que ele próprio fez nascer em Portugal? Ou agora que já não interessa e que é uma carta fora do baralho, irá lentamente morrer longe dos seus tempos aúreos e distante dos seus edifícios?
Será que 2004 se avizinha como sendo um ano de crise, agora com a UE alargada a leste? Será que a imigração continuará a ser um problema para as autoridades e o racismo/xenofobia uma característica mesquinha dos portugueses?
Talvez o jornalismo em Portugal retroceda ainda mais nas suas funções, continue a ser o lixo televisivo a que nos foi habituando nos últimos anos. Mas também uma coisa é certa, não vou esquecer uma opinião surgida num fórum de discussão onde habitualmente opino, algo mais ou menos assim: "Não é preciso ser-se rico para ter Internet. Basta ser-se uma pessoa consciente e comparar os beneficios que a rede são bastante maiores que uma televisão. E se o problema é a informação, enquanto que uma Tv transmite, no máximo, quatro opiniões distintas, a Internet multiplica esses valores, tornando-se mais importante que a própria televisão". E por acaso é verdade... Uma pessoa pode ser pobre, não ter posses, viver com o salário mínimo ou num barraco, mas televisão tem, concerteza! Pelo preço duma, talvez durante um ano pague o dispêndio tomado pelo computador e o acesso à rede. 2004 pode ser um ano de viragem.
Numa coisa, certamente haverá estabilidade. Ricos serão ricos, e pobres continuarão pobres. Nesse aspecto pouco muda... Continuarei a ver em épocas festivas, arraiais de multidões às lojas e centros comerciais, desafogando o dinheiro em desnecessárias roupas, em desnecessários adereços, em desnecessárias compras e bibelots mentais. Continuarei a ver o choro dos estudantes universitários que não querem pagar propinas, mas que nas festas do ViaRapida estarão lá batidos, com t-shirts alusivas aos cortes orçamentais. Continuarei a ver jovens ainda ontem defensores veementes de determinado partido político, e que hoje criticam o Governo porque têm de pagar propinas. Continuarei a ver outros que nada fazem para merecer bolsas e vão recebê-las com fartura, ficando fora dos contributos do Estado outros que precisam bastante mais do que aqueles cuja satisfação é gastá-lo com abundância. Vou continuar a ver alguns ilustres conhecidos fardando e impondo o seu orgulho perante outros seres humanos, com a mesma ou mais inteligência que os pseudo-doutores. Vou vê-los defender essas ideologias, esquecendo-se que a tortura psicológica e a própria vida sem graça não tem piada. Mas para vós tem piada.
Continuarei a ver as drogas leves a serem consumidas em segredo...Porque não a liberalização? Basta de traficantes e de ver alguns jovens a ganhar uns tustos à custa de algo que, tal como o tabaco ou o alcóol, ou mesmo aspirinas e outros analgésicos, estão legalizados.
Continuarei a ver mitos transformados em bandeiras e estandartes vermelhos, e Che Guevara´s bordados em calças da moda.
Continuarei a ver o Hip-Hop sendo discriminado, os artistas do movimento sendo fustigados com críticas elitistas, tentando ocultar a realidade das coisas. Não é preciso ser-se cego para não se ver. Há quem não o seja e não veja.
Continuarei a ver um ensino mais virado para uma elite, e menos concentrado no que realmente é a vida e no que cada um precisa e deseja. O direito à diferença. O direito a discordar do rebanho. E não ser necessariamente a ovelha negra!
Continuaremos a ser iludidos com promessas dos bandidos, publicidades fictícias a produtos, a incitação ao massivo consumo será mais uma vez explorado, e mais uma vez, a correria aos bens de "última" necessidade se verificará.
2004 será um ano onde a cultura será reduzida a uma modalidade desportiva? Ou a liberdade artística revelará novos nomes e novas formas de expressão? O novo canal 2, ou o "2:" será um fracasso? Ou agora que o projecto vai para o ar, vai tudo voltar as costas, e não terá a audiência que muitos prometiam?
E o Iraque? Vai ter McDonald´s, ou agora que o petróleo e o poder é americano, continuarão a subverter o povo à idolatração do ocidente? E voltando à desinformação, será mais importante referir um soldado americano foi baleado no Iraque do que 100 mortos em média diariamente, dizimados pelas tropas de G.W.Bush?
Muito mais haveria para dizer, mas fico-me por aqui nesta reflexão pós-2003... Quem tiver algo a acrescentar ou a criticar, sejam benvindos...

Publicado por pietr em 09:10 PM | Comentários (2) | TrackBack